Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Charyl nasceu com genitais ambíguos. Um médico especialista em intersexualidade deliberou durante três dias, dando calmantes à mãe de Chase sempre que esta perguntava o que estava mal com o seu bebê, e decidiu que ela era um menino, com um micropênis, testículos não descidos e uma abertura estranha atrás da uretra. Foi então passada uma certidão de nascimento dizendo que era um rapaz e assim começou a ser criado. Quando tinha ano e meio os pais decidiram consultar outros especialistas que garantiram que lhe "determinariam o verdadeiro sexo". O pênis foi considerado muito pequeno, quer para dar estatuto masculino quer para penetrar mulheres. No entanto, como mulher, seria penetrável e potencialmente fértil. O pênis foi então amputado e os genitais foram renomeados como vagina, uretra, lábios e clitóris exterior. A conselho dos médicos o seu nome foi mudado, foram retiradas da casa quaisquer sinais da sua vida anterior como rapaz: o certificado de nascimento foi alterado, a família foi instruída para a tratar como menina e mudaram de cidade. E nunca mais falaram a ninguém no assunto, inclusive a Charyl.

Com 8 anos foi operada para retirar a parte testicular das gônadas, glândula sexual que produz os gametas e segrega os hormônios. O testículo é a gônada masculina e o ovário a feminina. Não lhe foi explicado o porquê da operação, da estadia no hospital, das fotografias dos médicos, dos seus genitais e da inserção de dedos e instrumentos na sua vagina e ânus. Estas inspeções continuaram, mas terminaram assim que começou a menstruar. Isto descansou os pais quanto à boa escolha da feminilidade da sua menina. Enquanto adolescente apercebeu-se de que não tinha clitóris, nem lábios internos e que era incapaz de ter um orgasmo. No final da adolescência começou a consultar bibliotecas em busca de informação sobre o que lhe poderia ter acontecido; nessa altura decidiu tentar recuperar os seus registros médicos, o que demorou três anos. Nesses registros de três páginas dizia-se que tinha nascido um "hermafrodita verdadeiro", que tinha sofrido uma clitorectomia, extirpação total do clitóris, e que tinha vivido como rapaz até ao ano e meio.

Nessa altura, nos anos 70, tinha pouco mais de 20 anos. Tinha começado a identificar-se como lésbica, principalmente por causa da defesa de idéias feministas, mas não se conseguia ver a si própria como mulher, uma vez que já tinha tido um pênis, e não conseguia falar disso com ninguém. Cerca de quinze anos depois sofreu uma depressão. Apesar de ser uma executiva de sucesso numa importante firma tecnológica, para ela própria era um monstro, incapaz de amar e de ser amada e incapaz de confrontar a sua disfunção sexual. Decidiu procurar a ajuda de psicólogos, mas nenhum parecia entender a gravidade do seu sofrimento. Falou com amigos, mas ninguém sabia o que dizer-lhe. Estava em tal desespero que decidiu matar-se.

No entanto, não queria matar-se de qualquer jeito, mas sim acusando aqueles que lhe tinham causado o sofrimento. E foi ao perceber que o seu sofrimento e raiva podia ser usado para produzir algo, uma acusação e uma afirmação, e que era alguém com um determinado caminho a percorrer, um caminho que era o seu, a sua autenticidade, foi assim que, ao fim de muitas semanas de agonia, começou a vislumbrar uma saída. Começou a ver-se duma forma muito mais politizada e crítica. Conseguiu retirar das lições dos movimentos gays e lésbicos a idéia de que ser intersexo era bom, de que era apenas diferente, de que era alguém com uma identidade perfeitamente válida e possível.

ISNA (Intersex Society of North América)

No Outono de 1992, Charyl mudou-se para São Francisco em busca de outras pessoas como ela. Felizmente chegou lá quando o movimento transgender estava em plena expansão, e também os estudos de gênero feitos por acadêmicos transexuais. Começou a perceber que era possível construir uma política cultural da intersexualidade, mas a experiência realmente fantástica foi partilhar, com outros transexuais e pessoas com cirurgia genital, banhos de sol num fim-de-semana, numa ‘Conferência de Novas Mulheres’, em 93. Essa experiência foi muito reconciliadora consigo própria, entusiasticamente eufórica.

Com a ida para São Francisco tinha começado a contar a sua história a muita gente, e tinha encontrado já seis pessoas com condições intersexuais, duas das quais não operadas. Conclui que não eram assim tão raros. Rapidamente conseguiu formar uma rede de apoio, a que chamou ISNA (Intersex Society of North América - Sociedade Intersexo de Norte-América). Foi desta forma que recebeu centenas de cartas de pessoas de todo o mundo relatando as suas experiências e ganhou uma visão mais clara de todo o sofrimento causado e de como era importante lutar para que não se realizassem intervenções cirúrgicas nos genitais durante a nascença só por motivos cosméticos.

Charyl vive ainda à frente da sua ISNA, e é a primeira líder do movimento para acabar com a vergonha, o sigilo e as indesejadas cirurgias genitais nas pessoas nascidas com anatomia reprodutiva atípica. A ISNA está trabalhando para acabar com a idéia de que o intersexualismo seja uma coisa vergonhosa ou monstruosa. A ISNA reconhece a importância fundamental de convivermos uns com os outros, independentemente do nosso gênero e dos nossos genitais, sem mentiras e sem vergonhas.

Nos anos sessenta, os avanços da cirurgia plástica combinados com a teoria "Genitais + Criação" da identidade de gênero conduziram aos médicos a recomendar uma cirurgia de "conserto" em muitos tipos de crianças intersexo. A idéia era fazer com que os genitais aparecessem cosmeticamente corretos, sejam de menino ou de menina, e depois educar a criança no gênero "apropriado," crendo que assim desenvolveria uma identidade de gênero normal e correta. John Money (foto), da universidade Johns Hopkins, era o defensor principal destes tratamentos. Sendo um convencido da psicologia na qual se considera a mente da criança uma lousa branca e sem características inerentes de personalidade, John Money teorizou que a identidade de gênero era exclusivamente o resultado da criação e da socialização.

Nos Estados Unidos apenas cinco crianças estão submetidas diariamente às perigosas e desnecessárias cirurgias. A sociedade ISNA insta aos médicos a utilizar um modelo de tratamento centrado no paciente, e não no encobrimento. 'Quando nasce um bebê intersexual, o procedimento de rotina é a prática de cirurgia, afirma Cheryl Chase, os médicos tratam de arrumar o que não seja correto, logo colocam uma fralda no bebê, fecham o arquivo, e esquecem dele'. Erradamente guiados durante décadas pela teoria de Money, a profissão médica causou a irreversível incapacidade física de milhares e milhares de bebês intersexo. Essas angustiantes experiências causaram uma vida traumática nessas pessoas que foram "consertadas cirurgicamente" na infância, e que cresceram sem que ninguém, nunca, lhes dissessem o que aconteceu.

(por Lynn Conway e traduzido por Sonia John)


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