Sábado, 24 de Maio de 2008

considerada a mais famosa travesti da alemanha nazista e depois da alemanha oriental comunista

Charlotte era uma impossibilidade. Não por ter sobrevivido ao nazismo sem deixar a Alemanha, muito menos por ter respirado o comunismo em Berlim até o dia em que o muro foi esfacelado. Mas por ter vivenciado a desumanidade dos dois regimes sem tirar as longas saias, as camisas bordadas e seu inseparável colar de pérolas. Charlotte era uma travesti. Acreditava pertencer a um terceiro sexo.

Charlotte von Mahlsdorf, nascido em 1928 como Lothar Berfelde em Mahlsdorf, foi o filho de uma mãe generosa e de um pai tirânico e nazista. Em uma idade muito precoce, sete ou oito, ele descobriu que gostava de vestir roupas velhas da sua mãe. Quando a população da cidade foi obrigada a sair por causa dos ataques aéreos, Lothar, sua mãe e irmãos foram para a cada da tia Louise, na Prússia.

Louise era lésbica, vestia macacões masculinos e esquecia os vestidos no armário. Certa vez, Lothar resolveu experimentá-los. E gostou. 'Você deveria ter sido uma mulher e eu um homem', disse a tia ao menino. Tia Louise ainda colocou nas mãos de Lothar o livro 'Die Transvestiten', de Magnus Hirschfeld, que criou o termo travesti, e, como boa alemã, ordenou: 'Leia!'. A companheira de Louise, que foi morta pelas forças nazistas, chamava-se Charlotte e foi daí que Lothar resolveu incorporar o nome de Charlotte von Mahlsdorf,

Lothar, se recusava a andar armado e uniformizado, preferia usar cabelos longos e loiros, sapatos femininos e os casacos da mãe. Nada que agradasse aos nazistas, que durante toda a guerra, deportaram homossexuais para os campos de concentração. Com o fim da guerra, a vida gay ressurgiu em Berlim, mas durou pouco. Em 1952, os comunistas fecharam todos os estabelecimentos gays, incluindo a taverna ‘Mulack-Ritze’, uma relíquia fundada em 1770. Por este bar, circularam nomes como Bertolt Brecht e Marlene Dietrich. Os donos da taverna preferiam os homossexuais, por eles não ficarem bêbados e não arrumarem brigas. Um dia antes de os comunistas baterem na porta do ‘Mulack-Ritze’, Charlotte comprou tudo, as mesas, os copos, os talheres e as placas, e guardou tudo no porão de seu museu. E era lá que os homossexuais passaram a se encontravam durante o regime comunista.

Charlotte nunca se casou. Aos 40 anos, sua mãe lhe perguntou se já não era hora de ela arrumar alguém. 'Sou minha própria esposa', respondeu. Depois da queda do muro, a preservação da taverna foi reconhecida pelo Mistério da Cultura com uma importante contribuição à preservação da memória alemã. Charlotte, que em 1971 tinha assumido o nome feminino e o sobrenome emprestado da cidade natal, foi condecorada pelo governo alemão.

Sua história é tema de uma peça de teatro, do autor Doug Wright, que tem arrancado aplausos dos mais respeitados críticos americanos, 'I am my own wife' ('Sou minha própria esposa'). Em 1992, Doug havia descoberto Charlotte em Berlim. Charlotte, então com 64 anos, mantinha um museu, o ‘Grunderzeit-Museum’, que havia construído para abrigar sua coleção de móveis e antiguidades como os amados gramofones. Para Doug, ela era um enigma. Charlotte mudou-se para a Suécia em 1991. No dia 30 de abril de 2002, durante uma visita ao seu museu em Berlim, sofreu uma parada cardíaca e morreu ali, entre os gramofones e móveis que transformou em história, a história que agora comove a Broadway.

No Brasil, o ator Edwin Luisi (foto) recebeu, em março, o Prêmio Shell de Teatro na categoria de melhor ator por sua interpretação da travesti alemã Charlotte von Mahlsdorf no espetáculo ‘Eu sou minha própria mulher’. No palco Luisi enfrenta o desafio de viver 25 personagens para contar a história de Charlotte.



publicado por star às 09:33 | link do post | comentar

2 comentários:
De Luma a 29 de Maio de 2008 às 00:15
Achei Charlotte von Mahlsdorf bem parecida com o Paulo Autran. Beijus


De eveli a 13 de Março de 2009 às 23:09
Charlotte foi uma sobrevivente da guerra e do preconceito .
O fim da guerra não foi suficiente libertar a alma humana e afasta-la totalmente da discriminação.


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