Domingo, 2 de Dezembro de 2007

De todas as variantes da sexualidade humana, nenhuma é tão incompreendida quanto o transexualismo, a bizarra experiência de nascer com cromossomos, genitais e hormônios de um sexo - mas ter a convicção íntima de pertencer ao gênero oposto. Enquanto gays, lésbicas e travestis assumem os órgãos genitais que têm, transexuais repudiam o que a natureza lhes legou. São pessoas que nasceram com um sexo biológico, mas psicologicamente não aceitam sua condição sexual. Ou seja, elas possuem a genitália mas sentem intimamente que pertencem ao sexo oposto ao seu sexo anatômico.

A crise de identidade sexual começa cedo e produz resultados dramáticos. Transexuais e suas famílias vivem uma árdua experiência. Os garotos não entendem por que precisam usar roupas masculinas, desprezam carrinhos e chuteiras, empreendem investidas furtivas ao guarda-roupa da mãe. As meninas com cérebro masculino acham normal andar sem camisa e seguir esportes abrutalhados. Atônitos, os pais assistem à demolição de seus sonhos e ao fim da harmonia doméstica. Os filhos levam vida amorosa complicadíssima, rejeitam o rótulo de homossexuais e escondem os órgãos genitais na hora do sexo.

Um transexual masculino é anatomicamente um homem, mas sente-se como uma mulher desde a infância e o transexual feminino é justamente o contrário. 'Os transexuais não são homens que desejam se tornar mulheres', explica o psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa, da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana. 'Psicologicamente, eles já são mulheres.' Durante a vida, procuram se aproximar fisicamente do seu sexo psicológico, principalmente através de hormônios. Tem casos que esta não aceitação do sexo faz com que o transexual não goste nem de se tocar sexualmente. Vivem um estranhamento em relação ao próprio corpo que desencadeia tentativas de automutilação e suicídio.

Este conflito por vezes só é superado pela operação de readequação genital (troca de sexo). Aí sim, a pessoa encontrará um equilíbrio com seu sexo biológico e psicológico, achando assim seu verdadeiro 'eu'. Hoje está definido que a síndrome só pode ser aplacada por tratamento cirúrgico, embora os médicos refutem a expressão mudança de sexo. 'Não mudamos nada', diz o cirurgião plástico Jalma Jurado, o mais experiente no Brasil, com 200 operações no currículo, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, no interior paulista. 'Apenas adequamos o sexo ao cérebro.'

Muitos mitos quanto a este tipo de cirurgia já caiu por terra. Antigamente dizia-se que o transexual que operava ficava louco, que não sentia orgasmo e coisas do gênero. Hoje os avanços científicos fazem com que, após a cirurgia, os transexuais levem uma vida normal, sem loucura, pois se hoje, uma cirurgia de miopia é completamente diferente de anos atrás, devido a evolução científica, por que com a cirurgia de mudança de sexo seria diferente? Mesmo assim, só com muita determinação alguém se propõe a mudar de sexo.

É difícil imaginar procedimento tão aflitivo quanto o que cria uma genitália feminina a partir da masculina. A pele e os nervos do pênis são utilizados para revestir internamente a fenda aberta no períneo, a chamada neovagina. A maioria das operadas aprova o resultado. Dizem sentir prazer, principalmente no fundo do canal vaginal, onde é adaptada a glande do pênis, uma usina de sensibilidade. Os médicos são capazes de construir o clitóris, mas nem sempre ele funciona como zona erógena. Por isso, 99% das transexuais brasileiras sonham com a operação em Bangcoc, na Tailândia, onde os cirurgiões Suporn Watanyusakul e Preecha Tiewtranon criam um órgão idêntico ao das mulheres a partir de tecido da uretra e se aproximam da perfeição estética. veja aqui o roteiro da cirurgia

Alguns fatos que marcaram a história do transexualismo no Brasil e no mundo

1931 - Instituto Hirschfeld de Ciência Sexual, em Viena, apresenta a primeira cirurgia de mudança de sexo. Consistia em retirada do pênis e criação de uma vagina.
1952 - Aos 26 anos, o ex-soldado George Jorgensen Jr. torna-se o primeiro americano a passar pela cirurgia e vira celebridade. Adota o nome de Christine.
1962 - A Universidade da Califórnia, em Los Angeles, aplicava tratamento comportamental para 'ensinar' meninos e meninas transexuais a se conformar com os genitais. Os resultados eram pífios.
1969 - O brasileiro Airton Galiaci (Jacqueline) é o primeiro latino-americano a ser operado. A cirurgia foi realizada em Casablanca, no Marrocos.
1971 - A primeira operação brasileira foi realizada em São Paulo pelo médico Roberto Farina, que acabou preso por lesões corporais. Farina foi absolvido. A Justiça concluiu que a cirurgia era o único meio de aplacar a angústia do transexual.
1984 - Roberta Close torna-se a primeira transexual a posar nua para uma revista masculina no Brasil, antes de passar pela cirurgia, na Inglaterra.
1997 - O Conselho Federal de Medicina autoriza a realização de cirurgias experimentais de mudança de sexo em hospitais universitários
2001 - A transexual espanhola Angela Fernandez, de 28 anos, casa-se oficialmente com Angel Romera, de 22. Depois de uma batalha judicial, ela conquistou a primeira licença para casar no país.

Transexuais famosas

O ex-soldado George Jorgensen Jr. torna-se o primeiro americano a passar pela cirurgia. Adota o nome de Christine.
veja aqui a sua história

A golfista transexual Mianne Bagger quebrou barreiras, tornando-se a primeira trans a ser convidada para competir na ALPG (Australian Ladies Professional Golf Players). Bagger já tinha feito história quando foi autorizada a jogar no torneio feminino do Aberto de Tênis da Austrália. A golfista finalizou sua mudança de sexo em 1995 e desde então vem quebrando tabus no tradicional mundo do golfe.

Alexandre, aos 16 anos, e hoje, como Maité Schneider, escritora, atriz, colunista de vários sites GLBT, presidente da União Brasileira de Transexuais (UBT), Coordenadora do Núcleo de Travestis e Transexuais Marcela Prado do Grupo Dignidade e Vice-presidente do Núcleo de Direitos Humanos do Movimento Pró-Paraná.

Nasceu como Luiz Roberto Gambine Moreira, transformou-se na famosa Roberta Close.

Depoimentos

Rusty Mae Moore (a da direita), 60 anos, economista

'Vivi como homem até 1993, tive três filhos e construí uma carreira acadêmica na Universidade Hofstra, em Long Island. Eu era o economista americano Russel Moore. Fiz pesquisas no Brasil nos anos 70 e dei aulas na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. De volta aos EUA, decidi fazer a cirurgia de mudança de sexo. Fui bem recebida, embora alguns alunos rissem. Não importava. Mudei meu nome para Rusty Mae Moore e continuei na universidade. Em 2000, fui ao Brasil assistir a conferências e encontrei colegas da FGV como o ex-ministro Bresser Pereira e o senador Eduardo Suplicy. Mas não tentei me apresentar a eles, não queria provocar embaraço. Sou bissexual e tenho uma companheira lésbica, Chelsea. Transexual como eu, nasceu com genitália masculina. Fizemos a cirurgia juntas, em 1995. Aprendi que o amor se baseia na conexão espiritual, não na configuração dos corpos.'

No passado engenheiro químico de prestígio, hoje, Martha Freitas, 52 anos, sexóloga

'Nasci com cabeça de mulher, mas reprimi essa realidade quanto pude. Como engenheiro químico de prestígio, dei aulas em universidades e fui consultor de indústrias petroquímicas e de fertilizantes. Tive de enterrar essa carreira porque a masculinidade do ambiente não permitiria que eu virasse a Marthinha de uma hora para outra. Não passaria sequer da portaria das empresas. Fiz um mestrado em sexologia e hoje me dedico a atender pessoas com transtornos de identidade sexual. Quando ligam procurando o 'falecido', digo que ele está no Exterior. Antes da transformação, casei e tive filhos. Não tenho mais contato com eles. Era um amante do tipo que as mulheres gostam. Fiz a cirurgia aos 47 anos e hoje vivo no Rio. Ganhei uma vagina, tenho mais prazer e estou em paz comigo mesma. Mas, confesso, sou bissexual. Posso me apaixonar tanto por homens quanto por mulheres.'

Rudy Pinho, 53 anos, cabeleireira

'Desde a infância em Minas agia como menina. Mas não pude me expor logo no início porque durante a ditadura era muito perigoso sair na rua maquiada ou vestida de mulher. Fiz a cirurgia em 1989 na Suécia. Já existia a parte de construção do clitóris e o resultado foi muito bom. Fiquei bem satisfeita. Assim como qualquer mulher, às vezes tenho orgasmo e às vezes não. O prazer depende de um todo, de estar com a pessoa certa. Sou casada com um homem de 35 anos que conheço desde os 12. Também tive a chance de ser mãe. Adotei uma criança de 6 dias que hoje é um homenzarrão de 24 anos.'

Na adolescência, como Errolclaud, depois da cirurgia de mudança de sexo, Marília, 22 anos, maquiadora

'Fiz a cirurgia, nos primeiros dias senti dores incríveis. Gemia o tempo todo e mal podia mover e trançar as pernas. O incômodo durou dez dias e nenhum analgésico resolvia. Mas valeu a pena porque hoje me sinto uma mulher completa. Só me arrependo de não ter feito a operação antes. Sinto-me mulher desde que me conheço por gente. Nasci em Belo Horizonte e, aos 5 anos, já destruía o estojo de maquiagem da minha mãe, Marília. Aos 10, as amigas dela olhavam o meu cabelo chanel e diziam: "Que linda menina você tem". Ela não se deixava abalar pelos comentários e sempre compreendeu meu sofrimento. Mamãe tem acompanhado toda a transformação do meu corpo. Comecei a tomar hormônios femininos aos 13 anos. Depois vieram a prótese nos seios, o silicone no corpo, a lipoaspiração. Sonho em me casar e há um ano namoro um administrador de empresas de 32 anos. Estava sozinha na fila do cinema quando ele se aproximou. No terceiro encontro, contei que era transexual.'

O adolescente Silvio tornou-se a exuberante Guta Silveira, 35 anos, secretária

'Nunca gostei de roupas e brinquedos de menino. Na adolescência, achei que fosse gay. Meu pai é um locutor de rádio e ex-juiz de futebol bastante conhecido em São José do Rio Preto, no interior paulista. Quando ele se acostumou com a idéia de ter um filho homossexual, eu descobri que na verdade era mulher. Ele ficou chocado. Disse que preferia morrer a aceitar que eu fizesse a cirurgia. Rompemos relações, mas minha mãe apoiou minha decisão. Depois da operação, sofri o que chamam de Síndrome do Príncipe Encantado. Antes, achava que meus relacionamentos eram curtos porque não era uma mulher completa. Quando conquistei um órgão sexual feminino, descobri o prazer, mas continuei sofrendo desilusões amorosas. Descobri que os homens são volúveis mesmo e não há como mudar isso.'

(fonte: revista Época)

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publicado por star às 06:36 | link do post | comentar

2 comentários:
De Luiz Lailo a 2 de Dezembro de 2007 às 12:50
Certo dia comprei um long-play com o título Switched-On Bach. Era música de Bach tocada num sintetizador Moog ou coisa que tal. O artista era Walter Carlos. Logo depois adquiri The Well-Tempered Synthesizer ainda com Walter Carlos. O trabalho seguinte já era assinado por Wendy Carlos. Demorei um pouco a me posicionar; depois soube que Walter se separara da esposa e que Wendy se casara com um senhor. Depois meu gosto musical mudou um pouco e eu não soube mais do músico/a Carlos.


De Mara* a 3 de Dezembro de 2007 às 16:07
para Luiz Lailo:

A transexual Wendy Carlos, nascida Walter Carlos, foi uma das primeiras artistas da música eletrônica a usar os sintetizadores, além dela ser musicista, ela é física e fez a trilha sonora do filme ‘Laranja Mecânica’ do Stanley Kubrick.

beijão


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