Quarta-feira, 11 de Julho de 2007
"Historiadora-poeta" e "romancista", como ela mesma se definiu, Marguerite Yourcenar, que também foi tradutora, ensaísta e crítica, foi a primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa. Sua obra, que sonda o passado - familiar, mitológico e histórico -, conheceu um sucesso mundial com as “Memórias de Adriano” e “A Obra em Negro”, cujos heróis oscilam, a sua imagem, entre o gosto pelo conhecimento e a tentação da carne.

A primeira mulher a ser eleita em 1980 para a Academia Francesa nasceu com o nome de Marguerite de Crayencour, no dia 8 de junho de 1903 em Bruxelas (Bélgica), filha de mãe belga e pai francês. Antes de morrer "no campo de honra das mulheres" de uma febre puerpural, sua mãe, Fernande de Cartier de Marchienne, recomenda que não se impeça a menina de se tornar religiosa se ela assim quiser. Ingressando na literatura, Marguerite acredita ter atendido o desejo de sua mãe. Michel, seu pai, que é mais do que um pai, um pedagogo, um confidente, um amigo, não é homem de fazer a filha ingressar em qualquer ordem que seja.

Esse anticonformismo deixa-lhe como herança o gosto pela vida errante, além de uma grande cultura, que divide com ela, assim como sua biblioteca. Em 1914, a Primeira Guerra Mundial os surpreendeu em Ostende e os dois embarcaram para a Inglaterra, onde viveram um ano no subúrbio de Londres. Nesse ano, ela aprende o inglês e começa a estudar a língua latina com o pai, que mais tarde também lhe ensinará o grego. Marguerite não teve uma educação formal, tendo sempre estudado em casa, com preceptores ou sozinha. Juntos, pai e filha escolhem para ela um pseudônimo que é o anagrama de seu sobrenome: Yourcenar. Sua primeira obra publicada por uma verdadeira editora é ”Alexis”, carta de ruptura escrita à mulher por um homem que prefere os homens.

Seu pai morre, em 1929, e a jovem Marguerite vai conhecer os anos mais intensos de sua vida de mulher. Ela ama, escreve, e perambula pela Europa. Esses anos serão sobretudo os anos de uma paixão impossível por um homem que não a ama e que, como Alexis, prefere os homens. Mais tarde, ela condenará esse amor de desejo, sentimento pouco honrado, repleto de possessividade e amor pessoal. E começa a abraçar as distâncias. Em 1936, sua vida sofre uma reviravolta, a exemplo da Europa que se incendeia. Ela não tem mais dinheiro e a guerra acaba de ser declarada. Em 1937 ela encontra e ama Grace Frick, uma doutoranda de Yale. Parte então para uma temporada e acaba ficando na América pelo resto da vida. A norte-americana Grace seria sua companheira constante, com quem viveu 40 anos, e tradutora de seus livros para o inglês.

Tornou-se, em 1947, cidadã americana, utilizando o pseudônimo - ela só recuperará a nacionalidade francesa ao entrar para a Academia Francesa - e em 1950, instalou-se com Grace em Petite Plaisance, uma casa, na solidão de Mount Desert Island, no Maine, onde viveram uma existência mais ou menos discreta até Grace ter morrido de cancro, em 1979. Ela deixa de ser uma mulher escritora para tornar-se escritora antes de tudo, uma escritora a quem às vezes acontece ser uma mulher. Esse status, ela deve primeiramente a "Memórias de Adriano" que, publicado em 1951, conhecerá um imprevisível sucesso na França e no mundo inteiro.

Seus últimos anos serão marcados pela glória, uma série de honras e prêmios literários que conduzirão essa soberana, chamada de "Madame" até mesmo pelas pessoas mais próximas, à Academia Francesa. Ao longo da vida Marguerite continuou a lutar pelos direitos cívicos, pela preservação e melhoria do ambiente, pelos direitos e protecção às crianças, às minorias, aos animais. Insurgiu-se ferozmente contra as guerras, contra a falta de ética nas experiências científicas, contra a cupidez, contra a exploração do homem pelo homem, em nome da economia, das idéias ou das crenças religiosas.

Já com setenta e muitos anos Marguerite apaixonou-se novamente por um jovem homossexual, o realizador de cinema Jerry Wilson, com quem passou alguns anos até ele iniciar um caso amoroso com outro homem. Marguerite ressentiu-se da intromissão e reviveu o delírio e angustia do seu primeiro romance “Alexis”. Ela havia escrito profeticamente na juventude: "Solidão...Eu não acredito como eles acreditam. Não vivo como eles vivem. Não amo como eles amam...Eu morrerei como eles morrem." Apesar de tudo, quando Jerry morreu prematuramente de AIDS, em 1986, Marguerite chorou-o sentidamente e ficou tremendamente abalada, não tendo mais forças para continuar sozinha por muito tempo, ela que gostava de dizer que só se morre de desgosto. Semanas após a morte do companheiro disse: “de repente, eu sinto o que nunca me sentira: velha”, tendo morrido um ano depois, com 84 anos.

(por Michèle Sarde, ensaísta, romancista francesa e professora
da Universidade de Georgetown nos Estados Unidos)


publicado por star às 14:32 | link do post | comentar

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