Sábado, 19 de Julho de 2008

a ‘Ópera de Nova York’ deu a missão ao maestro Charles Wuorinen para compor uma ópera baseada em ‘Brokeback Mountain’, o conto da escritora Annie Proulx sobre dois caubóis que se apaixonam. Depois do filme de Ang Lee, ganhador do Oscar de 2005, a nova obra promete mais polêmica e também muitos aplausos.

Edna Annie Proulx é uma escritora e jornalista norte-americana, de origem franco-canadense, nascida em Connecticut. Edna começou tardiamente a escrever ficção, aos 56 anos. Em 1999, resultante de um longo período de viagens pela Europa, Nova Zelândia e Austrália, lança a coletânea 'Close Range'. Dentre as histórias contidas nesse livro estava 'Brokeback Mountain', inicialmente lançado na conceituada revista ‘The New Yorker’, em 1997.

Críticos de seu trabalho acusam-na de expôr seus infelizes personagens a traumas intensos e a uma realidade negra demais. No caso de ‘Brokeback Mountain’, contudo, foi a realidade, que se encarregou de tornar a literatura ficcional de Annie Proulx um consistente presságio. Meses depois da publicação do conto, um crime de ódio aconteceu perto de onde a escritora mora. Matthew Shepard, então com 21 anos, saiu de um bar gay com dois rapazes. Ele foi levado a um lugar ermo, amarrado a uma cerca, espancado, roubado e deixado à morte, que o alcançou após horas de agonia sob o frio da noite. Cada um dos acusados recebeu duas penas perpétuas consecutivas.

Em um verão de 1963, antes dos hippies, do ‘amor livre’, do LSD, do ecstasy e da Aids, é que se encontram os caubóis Jack Twist e Ennis del Mar. Eles sobem a montanha Brokeback para cuidar de um rebanho de ovelhas e juntar algum dinheiro. Ennis pretendia se casar com sua namorada, mas o amor surge, sem dizer seu próprio nome nem encontrar nenhum outro que lhe convenha, e se instala entre os dois caubóis pelos 20 anos seguintes.

No conto de Annie Proulx, os caubóis são feios e toscos, muito diversos dos personagens de Ang Lee. Jack Twist é baixo, dentuço, de cabelos enrolados e tinha 'pneus' na cintura que aumentaram com o passar dos anos. Ennis del Mar, por sua vez, é alto e magrelo, de rosto fino, nariz torto e as pernas arqueadas típicas de caubói. Com poderosos diálogos e frases certeiras Annie Proulx mostra em menos de 60 páginas o poder de corrosão do medo e do mundo sobre o amor, sentimento em geral tido como indestrutível e milagroso. Sua trama desperta ao mesmo tempo a ansiedade de saber até onde vai tanta intensidade e o medo de virar a próxima página e descobrir a resposta.

Anos mais tarde Larry McMurtry e Diana Ossana fazem uma adaptação dessa história para um roteiro de filme que é materializado pelo diretor Ang Lee. ‘Brokeback Mountain’ conseguiu um feito inusitado, tornou-se um filme e o mais elogiado do ano. Sem cair na mesmice, sem cenas tórridas de sexo, o filme revela o romance proibido de dois caubóis de forma sensível e sincera. Impedidos de demonstrar e assumir seus sentimentos, eles são obrigados a escondê-los devido a realidade da época que não admitia casos homossexuais, visto conforme o relato de Ennis Del Mar (Heath Leadger) que confessa o fato de seu próprio pai ter espancando um deles até a morte. O relacionamento deles é algo maior do que simples desejo sexual, eles seguem apaixonados por muitos anos, vendo-se esporadicamente e encontrando um no outro o amor genuíno.

Heath Leadger e Jake Gyllenhall estão impressionantes. O primeiro está no seu melhor papel, merecidamente indicado ao Oscar. Abusando do sotaque e do jeito característico dos caubóis americanos seu personagem encontra-se atormentado por sentir algo indesejado, e Jack Twist (Gyllenhall) é a sua maldição. Jake interpreta um papel mais fácil, que está disposto a aceitar e expressar seus sentimentos, querendo viver junto com Ennis, mesmo que corra risco de se tornar vítima da violência e do preconceito. Michelle Williams vive a angustiada esposa de Heath Leadger, tanto na vida real como na tela. Demonstra segurança e só no olhar transmite mil palavras, como exemplo, a cena em que ela descobre que o relacionamento dos dois é mais que uma amizade. Uma história difícil e que tinha tudo para dar errado, acabou recebendo oito indicações ao Oscar. Contando um caso de amor universal em que não tem como não se identificar, independente da orientação sexual, ‘Brokeback Mountain’ é imperdível.


Fale de sua aldeia e falará do mundo, dizia Tolstói.
Annie Proulx quis falar do amor em uma aldeia
e falou do amor no mundo: e eles eram dois caubóis.

site oficial do filme



publicado por star às 09:37 | link do post | comentar

3 comentários:
De Luiz Lailo a 20 de Julho de 2008 às 13:13
Como é que se diz? Quando uma atriz, ou ator, recebe um determinado papel eles começam a frequentar certos ambientes para fazer uma "oficina", é isso? Passam ali perto do baixo meretrício e etc...

Eu tenho uma razoável voz de barítono, em decadência, é verdade, mas não me chamem para estrear a ópera baseada em ‘Brokeback Mountain’.

E agora vou tapar as orelhas. Vai falar minha querida amiga Tamara...


De Mara* a 20 de Julho de 2008 às 19:27
que pena! adoraria vê-lo travestido de ovelha e sendo tangido (será que existe isso para ovelhas? ou apenas para animais de carga?) brokeback acima pelos dois caubóis....e vc docemente, com sua voz de barítono balindo....méééé.....méééé.....mééé´....não me provoque luiz lailo!


De Luiz Lailo a 20 de Julho de 2008 às 20:16
Eu sabia que não ia sair barato. Ficou pior do que eu pensava.

Beijos, doce Tamara. Eu mordo e assopro.


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