Sábado, 4 de Agosto de 2007

De tia solteirona à liberdade de escolha

Elas nasceram em tempos bicudos da homossexualidade, décadas de 40 e 50 do século passado e foram criadas num ambiente onde falar e vivenciar a homossexualidade era algo extremamente secreto. Algumas passaram a adolescência e o início da idade adulta na ditadura militar, instalada em 1964, onde as liberdades democráticas foram suprimidas. Sexo, liberdade sexual, feminismo, virgindade, divórcio e “homossexualismo”, como era chamado na época, eram assuntos tabus e proibidos. Sexo gay e lésbico era altamente secreto e clandestino.

Muitas destas mulheres lésbicas entraram no casamento heterossexual para protegerem-se, poderem ascender socialmente, terem uma carreira profissional e inserir-se na comunidade local. Para uma mulher “solteira” esta tarefa era difícil. Esse padrão, ainda, é muito comum nos dias de hoje, principalmente, na classe média e na chamada classe “A”. Outro modo muito comum na época, e porque não dizer hoje, também, era obter uma carreira religiosa. Meninas lésbicas criadas num ambiente de prática religiosa aprenderam a gostar da religião e desenvolveram a vocação para freira. Para os religiosos trata-se de um chamado do espírito santo, para os cientistas do comportamento trata-se de um aprendizado. Entrar para a igreja católica traria, estabilidade, proteção, status, segurança e a não obrigatoriedade de contrair o matrimônio com um homem. Algumas desistiram deste projeto, pois as contradições são muitas. A opção final era ser a tia solteirona da família e mudar-se para um grande centro urbano, diminuindo as pressões familiares, isolando-se assim da sua família.

Mas, aconteceu Stonewall. Em 28 de junho de 1969, a polícia de Nova Iorque (EUA) invadiu o Bar Stonewall Inn, onde cerca de 400 homossexuais resistiram à invasão lutando contra a polícia e fazendo com que, no dia seguinte, os jornais do mundo inteiro noticiaram que os homossexuais de Nova Iorque deram seu grito de liberdade e saíram da marginalidade para conquistarem seu espaço público na sociedade. De lá para cá as coisas mudaram: o avanço da compreensão médica e psicológica da homossexualidade deixando-a de considerá-la doença e mais recentemente os grandes movimentos de massas no mundo inteiro, as chamadas paradas do orgulho gay e lésbico.

Muitas lésbicas maduras continuam hoje no casamento heterossexual. Outras se separaram para vivenciar sem culpa sua homossexualidade. Uma boa parte continua na clandestinidade ou semi-cladestinidade utilizando-se das salas de bate-papo na Internet. Visibilidade para a lésbica madura é algo complicado, pois foram criadas numa atmosfera de muita repressão sexual. Nos grandes centros urbanos uma parcela das lésbicas maduras vivencia sua homossexualidade de forma aberta. São as que conseguiram ultrapassar a barreira da clandestinidade. Freqüentam bares e boates onde o público é predominantemente de lésbicas maduras, suas admiradoras e amantes, que são as jovens lésbicas que gostam das grisalhas. E isso é muito bom!

Aquelas que no passado foram vítima da intolerância e da homofobia ferrenha deram a volta por cima e procuram, já na entrada da boa idade, vivenciar de forma saudável o que a vida nos oferece de mais prazeroso que é nos relacionar sexualmente com quem verdadeiramente nos proporciona prazer, o nosso real objeto de desejo sexual, no caso das lésbicas maduras as suas iguais.

(o texto é do psicólogo e terapeuta sexual João Pedrosa e foi adaptado. A foto é de Susan Sontag, escritora americana, intelectual e ativista, ela era bissexual)



Eu, Mara*, sou uma delas. A chamada coroa, grisalha. Não optei pela “solteirice”, mas vivi a opressão, a repressão e a ditadura. Não tive coragem de me assumir como fez Francisca, butch, pobre, chamada "Chica mulher-macho", vizinha de quando eu era adolescente. Francisca se matou, assumiu, mas não suportou a pressão e a solidão. Rosi e Meire, coroas, grisalhas, as solteironas da rua, poder aquisitivo superior aos demais moradores, se diziam “irmãs”, todos sabiam que na verdade, eram irmãs de lençóis, mas eram toleradas, desde que continuassem como "irmãs". Sobreviveram até a idade de setenta e poucos anos. Eram os anos sessenta. Anos terríveis, anos das "mulheres de Santana", anos da Tradição, Família e Propriedade. O desquite foi aprovado, grande avanço. Desquitei-me. Mulher desquitada, puta. Estes, eram os anos setenta. Terríveis também. Com quarenta anos assumi o que eu sou, lésbica. Decidi ser feliz e a partir daí, vivo meus anos dourados. Cinquenta anos. Coroa, grisalha, ainda continuo no armário, resquícios dos anos de chumbo.


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publicado por star às 06:50 | link do post | comentar

3 comentários:
De Júnior Creed a 6 de Agosto de 2007 às 10:49
Olá Mara! em primeiro lugar quero te agradecer pela linda passagem no meu blog, gosto de gente asssim que deixa rastros para que eu possa seguir e abraçar. gostei mto do blog, muito mesmo, o layout é lindo demais. te desejo sucesso, e prometo te visitar de novo. beijossssssssssssssssss!!!!


De Priscilla a 2 de Janeiro de 2009 às 17:57
O melhor do post é o 'asterisco' final... LINDÍSSIMO! Por todo o blog tive vontade de comentar em cada texto que li, mas neste foi absolutamente inevitável não fazê-lo... parabéns, e espero que um dia possa sair do armário e conquistar ainda mais um pedaço da plenitude de sua alma, da cidadania gay e dignidade de mulher.


De mara* a 4 de Janeiro de 2009 às 09:12
Priscilla, obrigada pelo carinho e compreensão. Estou com um pé fora do sufocante armário, mas o mais importante foi aceitar a minha sexualidade e ser feliz com uma igual. Um beijo grande.


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