Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008
viveram quase 10 anos juntas

Djuna Barnes (foto da esquerda) é uma das mais renomadas e, ao mesmo tempo, desconhecida autora da literatura modernista americana do século XX, como ela mesma costumava dizer ‘a mais famosa desconhecida do século’.

Djuna nasceu em 1892 nos arredores de Nova York e escreveu clássicos de temática lésbica, como 'Almanaque das Senhoras' e 'O Bosque da Noite' e sua escrita tem uma característica marcada pelo humor negro e ironia.

Sua família não era nada convencional. A avó, Zadel, era jornalista e feminista. O pai, Wald, era adepto da liberdade sexual e mantinha duas famílias, a da esposa e a da amante, sob o mesmo teto. Nem Djuna nem seus irmãos freqüentaram a escola pois Wald era contra o sistema educacional e achava que a educação familiar seria mais importante e enriquecedora.

A excentricidade da família de Djuna marcou a tal ponto sua história que foi passada para um de seus livros, 'Ryder'. Quando Djuna fez 16 anos, Wald resolveu que ela já estava pronta para conhecer o sexo e submeteu-a a uma relação forçada com um vizinho. Djuna nunca mais perdoou o pai por aquela agressão nem os irmãos, pelas constantes tentativas de abusarem sexualmente dela.

Quando Wald abandonou a família, Djuna foi para Nova Iorque trabalhar como jornalista para sustentar a mãe e os irmãos. Seus comentários sarcásticos tornaram-na, rapidamente, uma das mulheres mais bem pagas da época. Foi colunista especial de teatro em vários jornais e revistas.

Djuna uma vez "entrevistou" uma gorila num zoológico, algo originalíssimo na época e, em outra matéria, experimentou o drama das sufragistas inglesas que, em greve de fome, foram alimentadas à força: ela mesma se submeteu ao tratamento.

Depois da primeira guerra, Djuna, assim como vários americanos da sua geração, foi tentar a vida em Paris. Chegou à cidade como correspondente cultural, mas já era reconhecida por seu talento literário.

Na capital francesa, conheceu Natalie Barney, uma rica herdeira americana que se tornou anfitriã de um dos salões culturais de maior sucesso e que servia como ponto de encontro de artistas de todos os tipos, mas principalmente de lésbicas e homossexuais. Natalie, homossexual assumida que teve um rápido romance com Djuna, patrocinava os jovens talentos e foi uma das pioneiras a defender o 'orgulho gay'.

Bissexual, Djuna já havia tido casos antes, com homens e mulheres, mas foi em Paris que Djuna viveu o grande amor da sua vida, com a escultora Thelma Wood que dizia ter sangue de índio sioux nas veias e com isso queria explicar sua natureza selvagem.

Thelma também foi tentar a sorte em Paris depois da Primeira Guerra. Fugindo da Lei Seca e do provincianismo americano, dedicou-se à escultura até conhecer Djuna Barnes, que a convenceu a tentar desenhos a bico-de-pena. Elas haviam se encontrado em Berlim, se apaixonaram e, de volta a Paris, foram viver num pequeno apartamento na Rive Gauche. Mas a natureza primitiva e irrequieta de Thelma não combinava com uma vida caseira.

Para piorar, Thelma era alcoólatra, nunca conseguiu levar sua carreira a sério e era mais conhecida na cidade por seu sex-appeal e sua beleza selvagem do que pelo seu trabalho. Bebia demais e saía à noite pelos bares e nightclubs enquanto Djuna esperava em casa. Quando, Djuna, angustiada e impaciente, procurava Thelma pelas ruas, encontrava a namorada jogada pelas sarjetas.

Depois de quase dez anos de idílio amoroso, a relação começou a se deteriorar graças ao ciúme de Djuna, à infidelidade e ao hobby noturno de Thelma. Com o rompimento definitivo, depois da última traição de Thelma, Djuna escreveu sua obra-prima 'Nightwood' (No Bosque da Noite). Quando o livro foi publicado Thelma odiou e Djuna, sentiu-se vingada.

Depois de Thelma e Paris, o mundo parecia ter acabado para Djuna. Beirando os 50 anos, Djuna foi encontrada pela amiga Peggy Guggenheim em uma clínica de desintoxicação na Inglaterra. Peggy decidiu mandar a amiga de volta a Nova Iorque e, sozinha, Djuna resolveu escrever seu último livro 'The Antiphon', um retrato pervertido da família. Essa foi a forma encontrada pela escritora de se vingar da mãe, do pai e dos irmãos.

Por quarenta anos, Djuna permaneceu isolada em seu apartamento, sem receber visitas. Morreu aos noventa anos, em 1982. Depois de sua morte a sua obra, não muito numerosa e considerada obscena, por insistir em temas como lesbiandade, bestialismo e incesto, foi quase toda reeditada.

(fonte: Revista Época, por Graziela Salomão)


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publicado por star às 22:10 | link do post | comentar

3 comentários:
De Luiz Lailo a 2 de Fevereiro de 2008 às 14:30
Uma história muita bonita, como a maioria das que se lêem aqui. Quando percebi, já estava na última linha.


De Anónimo a 2 de Fevereiro de 2008 às 22:50
ufa ñ foi dificil
consegui chegar para deixar um beijo
quero ver sair agora
o que é url?


De Mara* a 3 de Fevereiro de 2008 às 21:26
viu!!!!! não doeu e ninguém mordeu...rs...como anônimo não aparece o nome, da próxima vez assine o comentário, isto é, se quiser. tá na hora de você pensar em ter um blog. beijão ligia.


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