Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Elisabeth Magdalena Catharina Ludovica Brentano, conhecida como Bettine von Arnim, foi uma escritora alemã, importante representante do romantismo. Em 1805, esta jovem escritora alemã correspondia-se com Caroline Gunderode, nascida como Maximiliane de Friederike Caroline Louise Günderrode, poetisa, e uma das mais enigmáticas figuras do romantismo alemão.

Bettine escrevia a Caroline, uma mulher com mais 8 ou 10 anos do que ela: ‘Se não existisses, o que seria o mundo para mim? Sou como morta se não me pedires que me levante e viva continuamente contigo. Tenho a certeza que a minha vida acorda apenas quando me chamas e que a minha vida morrerá se não puder continuar a crescer em ti. Sim, sei, a minha vida é insegura; sem o teu amor, no qual está plantada, a minha vida nunca florirá.’

Caroline correspondia à sua paixão e necessidade, declarando: 'Tu és o meu raio de sol que me aquece, enquanto que em todo o outro lado a geada cai sobre mim.'

A correspondência volumosa entre estas duas mulheres sugere um caso amoroso de grande paixão, no qual elas ofereceram uma à outra não apenas um afeto intenso, mas também apoio emocional e estímulo intelectual. Como muitas outras mulheres do seu tempo, noutros países, Bettine e Caroline viam-se a si próprias como "amigas românticas".

Apesar da grandeza do seu amor, Bettine e Caroline não viveram juntas. Poucas eram as mulheres que o faziam nos princípios do século XIX, quando não havia praticamente oportunidade de auto-suficiência econômica para as mulheres de classe média e alta. Esperava-se destas que casassem ou que entrassem para um convento ou outro retiro feminino semelhante. Caroline Gunderode, filha de uma viúva com vários outros filhos, escolheu este último caminho, tornando-se cônega da sua ordem religiosa.

As duas mulheres poderiam, é claro, ter fugido juntas como tinham feito na geração anterior na Inglaterra duas lésbicas, Sarah Ponsonby e Eleanor Butler, as ‘Senhoras de Llangollen’, mas talvez não tenham podido, ou não tenham querido arriscar a fúria de amigos e família que as ‘Senhoras de Llangollen’ tiveram de suportar. Se Bettine e Caroline fossem das classes mais baixas, uma delas poderia ter envergado roupas de homem, e obtido trabalho manual sob esse disfarce, e as duas poderiam ter passado por marido e mulher.

Mas mudar de classe, no início do século 19, era ainda mais difícil do que mudar de gênero. Além disso, Bettine e Caroline poderiam ter tido conhecimento do caso de uma outra alemã, Catarina Margarethe Linck, queimada na fogueira em 1721 por ter tentado passar por homem e por ter casado com outra mulher. Mas apesar de não terem passado a vida juntas, a sua correspondência indica que, como muitas outras "amigas românticas" da época, foram amantes em todos os sentidos exceto talvez o carnal, é muito pouco provável que tivessem posto essa experiência por escrito, mesmo que a tivessem tido.

Para nós, já no século XXI, poderá parecer incrível que duas mulheres possam ter estado tão apaixonadas sem nunca terem referido a este amor enquanto lésbicas, ou o seu receio de serem descobertas, ou o significado político do seu envolvimento uma com a outra. Contudo, tal falta de percepção era possível antes do advento dos sexólogos em finais do século XIX, quando informaram o mundo da existência de enormes quantidades de mulheres que amavam outras mulheres, de maneiras que ultrapassavam o afeto entre irmãs e que semelhante amor era mórbido.

(do livro ‘Lesbians in Germany’
de Lillian Faderman e Brigitte Eriksson)



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publicado por star às 09:22 | link do post | comentar

1 comentário:
De Tamara Mayfair a 11 de Julho de 2008 às 00:07
Estou simplesmente encantada com teu blog! Inteligente, sutil, bem humorado, informativo, doce...
Gostaria de adicionar aos meus favoritos, tudo bem?
Beijos e parabéns pelo blog.
;***


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