Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

Contar uma história de ‘coming out’ não é algo simples porque não é fácil resumir em algumas linhas um processo que demora anos, e que, em algumas pessoas, nunca se completa na sua totalidade. Antes do ‘coming out’ vem o ‘coming in’, que tem a ver com a aceitação pessoal de você mesma como homossexual. Recordo os tempos em que era para mim imensamente difícil dizer a palavra ‘lésbica’, quanto mais – Eu sou lésbica! Suponho que existem pessoas com uma grande liberdade interior e que aceitam a sua natureza com tanta espontaneidade que deixam as outras pessoas desarmadas nos seus preconceitos. Bem, eu não sou uma dessas pessoas e para mim este foi um processo penoso e prolongado.

A primeira vez que aconteceu, eu tinha 17 anos. Estava apaixonada pela minha melhor amiga e vivia esse sentimento num isolamento angustiado e desgastante. Quando contei a ela foi um drama: eu era uma traidora e já não era merecedora de confiança. Com o tempo conseguimos superá-lo e a nossa amizade sobreviveu. Como desabafo, contei toda a história a uma amiga comum, no que resultou em beijos, e lembro-me que foi uma experiência avassaladora, que me assustou por tudo ter sido tão bom e pelo sentimento de perda de controle. Nada mais aconteceu e continuamos a nossa vida como se nada tivesse acontecido, tal era a nossa incapacidade para lidar com o assunto.

Pouco tempo depois conheci um rapaz por quem me apaixonei e estive com ele durante quatro anos. Em certo momento, conheci uma mulher por quem me apaixonei completamente. Era um sentimento muito forte, ao mesmo tempo platônico, porque mais uma vez o vivia em silêncio. Tive que desabafar, e a primeira pessoa com quem o fiz foi precisamente com o meu namorado, que reagiu muito bem. De certa forma esta confiança no uniu mais e continuamos juntos durante mais algum tempo, mas este já foi um sentimento muito sofrido porque eu não conseguia deixar de gostar dela e começava a rejeitá-lo sexualmente.

Finalmente separamo-nos num processo gradual em que nos apoiamos mutuamente, pois, é difícil abdicar de tudo de um dia para o outro. Vivemos a paixão ou o amor na medida das nossas capacidades e sabedoria, e fizemos bem porque não nos magoamos muito e fomos sempre tão honestos que às vezes até doía. Por esta altura também, a minha mãe confrontou-me perguntando-me se eu não teria algo para lhe contar. Depois de negar muitas vezes disse que estava em dúvida em relação a minha orientação sexual, o que era uma mentira porque já tomara por um fato a minha homossexualidade, mas sempre há maneiras mais gentis de dizer as coisas.

A sua primeira reação foi um discurso educativo em que compreendia a minha atração por mulheres, pois ela já tinha sentido o mesmo. Minha mãe é uma pessoa extremamente tolerante e aberta a diálogos. Aos poucos, e cada vez mais confortáveis com o tema, fomos falando de forma cada vez mais honesta e frontal, e agora ela me entende muito melhor do que a minha irmã para quem o assunto ainda é bastante problemático.

Com o passar dos tempos todos os meus amigos souberam, comecei a me relacionar com homossexuais e a navegar por sites gays, o percurso normal. Neste momento é algo natural que não exibo nem deixo de exibir. Não é uma bandeira, é um simples fato. Ainda é muito difícil ser gay em qualquer lugar, principalmente nas cidades menores onde a aceitação da própria homossexualidade ainda é algo árduo de conquistar. Eu o fiz à custa de ansiedade, angústia e sofrimento, e suponho que como eu muitas outras. É uma pena que tudo tenha que ser tão difícil, nunca perdi um amigo ao dizer-lhe que era lésbica, nunca ninguém me atacou ou ofendeu, mas muito gente tentou me convencer do contrário, tentou ignorar o assunto e demonstrou verdadeiro pavor perante a idéia. Nestes momentos recordava o percurso que eu própria tive de fazer, e dava tempo às pessoas para assimilarem a idéia.

Agora, confesso que já não tenho a mesma paciência, o que não deixa de ser uma atitude de igual falta de tolerância, enerva-me a mesquinhez e a tacanhice da sociedade, o medo que tem do diferente, do desconhecido. Mas esta não é uma razão para deixar de acreditar, esta é apenas uma razão para compreendermos o quanto é cada vez mais imperativo e necessário este momento pessoal e único que é o ‘coming out’ de cada um e que contribui no abrir caminho para um ‘coming out’ coletivo para possibilitar, num futuro próximo, que a questão da homossexualidade seja uma questão ultrapassada. (depoimento retirado do site Rede Ex-aequo)



publicado por star às 08:03 | link do post | comentar

5 comentários:
De Anónimo a 21 de Setembro de 2008 às 23:13
Esta história é muito emocionante. Me senti bastante tocado pelo depoimento.


De Anónimo a 21 de Setembro de 2008 às 23:51
Fiquei muito emocionado com o depoimento.


De Isa Zeta a 22 de Setembro de 2008 às 08:38
meus pais até hoje nunca tocaram no assunto.

Talvez porque minha irmã mais velha esteja solteira até hoje.

Eu ainda não sei como sairei do armário. Nem quero muito pensar nisso, na verdade.

Um beijo.


De Mara* a 22 de Setembro de 2008 às 08:58
quando li este depoimento pela primeira vez, eu chorei, eu me vi em cada linha, em cada vírgula deste depoimento de sofia. talvez a minha história seja um pouco mais complicada, por envolver casamentos e filhos.

eu também sou enrustida para a sociedade e família, o que importa, creio eu, é nos aceitarmos a nós mesmas, como somos, o resto vem com o tempo.


De Anónimo a 30 de Janeiro de 2009 às 14:44
Bom...essa historia d sofia...me deixou ainda mais confusa...mas sei q depois d algum tempo eu me descubra aos poucos ..as vezes me pego me perguntando: Sou lesbica?ou nao sou?...apesar d ser muito nova,eu namoro com uma menina faz um tempo gosto muito dela mas tenhu minhas duvidas ela é mais velha mais "entendida"...disse q me ama muito e é disso que tenhu medo d mais tarde nao "aceitar" o meu jeito e magoa-la...profundament


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