Terça-feira, 25 de Março de 2008
as punições de leonard matlovitch e miriam ben-shalom

leonard matlovitch

O longo vai-e-vem pelo reconhecimento durou quase uma década. Leonard Matlovitch, o gay mais conhecido na década de 70 e veterano do Vietnã, pagou caríssimo por não mentir. Imaginem as voltas que uma cabeça conservadora como a dele, católico, extrema direita e depois mórmon, teve que dar para se aceitar. Foi capa da revista ‘Time’, a legenda abaixo de sua foto com o uniforme da força aérea gritava ‘Eu sou Homossexuall’. O Sargento Leonard Matlovich instrutor de esportes, veterano do Vietnã tendo recebido a ‘Medalha Púrpura’ e a ‘Estrela de Bronze’, por feitos heróicos, foi protagonista da mais celebre saída de armário da década. Matlovitch tremeu nas bases quando se viu na capa do ‘Time Magazine’, em 1975, com sua foto espalhada por todas as bancas de jornal do pais.

Sem ser ativista, tornou-se um símbolo para todos os homossexuais militares. Nascido em Savannah, Georgia, era filho de um oficial da Força Aérea Americana. Ele e a irmã viveram em bases militares e foram educados dentro dos preceitos da Igreja Católica. Foi racista e um patriota ferrenho, a bandeira americana sempre tremulando na porta. Voluntário para o serviço militar, lutou no Vietnã durante três anos até seu avião ser abatido e ficar seriamente ferido. Ao voltar para casa, depois de testemunhado os horrores da guerra, passou a morar na Flórida e, para sua própria surpresa, começou a freqüentar bares gays.

Numa entrevista, mais tarde, declarou: ‘Conheci um presidente de banco, um frentista de posto de gasolina e ali não havia discriminação. No dia 30 de maio de 1972, dormi com um homem pela primeira vez’. Somente amigos mais chegados sabiam de sua nova vida. Revoltado com as atrocidades cometidas contra os negros entre 1972 e 1975, tornou-se uma espécie de porta-voz da causa. Confiante na compreensão de seus oficiais superiores decidiu escrever uma carta, para ratificar sua homossexualidade.

O recorde de missões no Vietnã e a exemplar carreira não foram levados em consideração. Foi expulso da Aeronáutica seis meses após a declaração. Um advogado militar prometeu que, se assinasse um documento renegando tudo, seria reintegrado. Matlovich agradeceu e declinou. Ao contrário, processou a Força Aérea e não recebeu os 160 mil dólares de ressarcimento e a promoção que pedia no caso de uma volta com dignidade. Por ter se tornado mórmon foi duas vezes excomungado e expulso da igreja que freqüentava, mas em 1979, foi recebido de volta. A experiência mais dolorosa foi a reação dos pais. A mãe foi informada por telefone. Ficou tão abalada que não contou ao marido. E disse que Deus a tinha punido, porque o filho saído da Igreja católica ‘perdera o rumo’. Mais tarde admitiu que já havia suspeitado, tem mãe que é cega, mas só acreditou quando leu nos jornais. O pai? Gritou duas horas ao telefone e rompeu relações.

Gay assumido mudou–se para Califórnia e tornou-se um ativista. Acreditava que os gays civis poderiam se associar e lutar juntos pela causa comum, mas não teve sucesso no empreendimento. Entre 1975 e 1980 sua vida financeira desintegrou-se com o insucesso da sua pizzaria. A histeria coletiva que a divulgação do vírus da AIDS causou e mais a pecha de ‘câncer gay’ que teve no início o levou de volta a San Francisco, onde trabalhou como vendedor de carros. Durante o verão de 1986, começou a sentir os sintomas e foi dos primeiros a receber o tratamento com AZT, nos tempos em que se morria na tentativa da cura. Tornou-se, então, um ativista pela pesquisa das causas da doença. Morreu em 1988, com 45 anos e em seu túmulo tem a inscrição: ‘quando eu era militar me deram medalhas por matar pessoas e uma dispensa por amar outras’



miriam ben-shalon

Miriam Ben-Shalon foi a primeira pessoa homossexual recolocada no serviço militar depois de ter sido excluída em função da orientação sexual. Segundo a ‘Suprema Corte Militar’ dos Estados Unidos, que a inocentou, ela “não teria violado a primeira, a quinta e a nona Emenda da Constituição Americana”, argumento usado para condená-la. Embora não tenha conseguido a total reintegração, voltou em 1990 no posto de Sargento e na qualidade de lésbica assumida, detonando o argumento do exército de que homossexuais não serviam como exemplo de honra e dignidade.

Nascida em 1948 em Wisconsin, onde passou a infância, adolescência, terminou o 2º grau, casou-se, teve uma filha e se divorciou. Enquanto durou o casamento, viveu em Israel por 5 anos, fez uma total imersão cultural e civil; tornou-se cidadã e serviu no exército do país. Divorciada, voltou a Wisconsin e completou seus estudos na Universidade Estadual Milwaukee. Em 1974 começou seu tempo de serviço militar, servindo na 84ª Divisão de Treinamento do Exército e tornou-se uma das duas únicas mulheres instrutoras sargentos da Divisão. Militante de organizações lésbico-feministas, expôs sua orientação sexual e, ao saber do caso do Sargento Matlovich perguntou à sua superiora: ‘Por que não me mandam embora?’. Resposta da comandante: ‘Porque você é um bom quadro do exército’.

Foi neste momento da vida, que se envolveu com organizações lésbico-femininas, decidiu não mais esconder sua vida pessoal e tentar entender a forma ambígua como a ‘Polícia do Exército’ tratava gays e lésbicas. Era atribuição destes policiais investigar a vida privada dos soldados, sub-oficiais e oficiais e, caso encontrassem alguma irregularidade, recomendar seu afastamento.

Existia, e existe, entre a comunidade militar, uma orientação no sentido de expor e falar sobre a vida sexual: ‘Don't ask, don't tell’ (não pergunte e não conte). Ben-Shalom percebeu rapidinho como funcionava a hipocrisia do comando, que tolerava a vida privada de sua sargenta, mas não se sentia confortável com a sua divulgação. Em 1976, foi oficialmente dispensada do Exército, mas decidiu iniciar um procedimento judicial e pedir a reintegração. O direito à liberdade de expressão foi crucial para o caso Miriam Ben-Shalom.

O afastamento não foi baseado na conduta sexual, mas no fato de ela ser lésbica assumida. Muito bizarro. Tão bizarro que o próprio Juiz Evans deixou claro que a primeira emenda, a que rege a liberdade de pensamento, concede a gays e lésbicas o direito de servir à pátria. O Exército dos Estados Unidos apelou e mesmo com a sentença favorável do Juiz Evans recusou-se a recebê-la em seus quadros.

A batalha durou mais de uma década, em 1989, Miriam Ben Shalom foi reintegrada, apesar do parecer contrário do Juiz Harlington Wood Jr. Vitória com vida curta. Em 1990, a Suprema Corte se recusou até a tomar depoimento da militar, o que encerrou sua carreira. Mas ela se tornou militante das causas dos direitos políticos dos gays e lésbicas e fundou a ‘Associação de Veteranos Gays Lésbicos e Bissexuais’. Atualmente, ensina inglês nas escolas públicas de sua cidade natal, onde também trabalha como voluntária, na recuperação de adolescentes problemáticos. Em 2005, Miriam recebeu o ‘Prêmio Stonewall de Militância’ na festa do Orgulho Gay.

(por Thereza Pires - jornalista e ativista)



publicado por star às 06:05 | link do post | comentar

2 comentários:
De Luiz Lailo a 25 de Março de 2008 às 10:53
Em 1958 testemunhei um caso de homossexualismo nas forças armadas. Os dois envolvidos foram desligados sumariamente. Não sei como andam as coisas atualmente. Na próxima "ceia dos cardeais" vou tentar saber alguma coisa.


De Mara* a 26 de Março de 2008 às 11:19
creio que muito pouco tenha mudado, infelizmente, mas...aguardo o seu escarafunchar, quem sabe teremos boas novas, afinal lá se vão cinquenta anos desde o acontecido, quem sabe os sem largueza de vistas tenham evoluído.


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