Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Na ânsia de penetrarmos de vez na sociedade heterossexista que aí está e deixarmos de lado as décadas de marginalidade que cerca a homossexualidade, estamos também, e infelizmente, ”comprando” comportamentos da cultura heterossexual que na verdade não queremos ter. Ou deveríamos não querer. Ingressar nessa sociedade, mas não importa a que preço.

Vamos então, juntas, a uma boate homo. Qualquer uma. Música, muito dance e muito drink, olhadas e paqueras que tanto bem fazem ao nosso ego. Mas, infelizmente, não é apenas isso o que acontece. Começando que, se você não usa o uniforme oficial, ou seja, roupas de grife e da moda, já pode ser considerada uma carta fora do baralho e não será considerada como uma colega ou uma eventual parceira. Passada essa fase, vamos à seguinte: você tem um corpo malhado, “sarado”? O termo “sarado” já é carregado de preconceitos e significados, afinal passa a idéia que todo o corpo que não for malhado seria o quê? Doente? Doente é o antônimo de sarado. Ou seja, a nossa aquisição da sociedade heterossexual começa já aí, na ditadura da estética e da juventude eterna. Tem coisa mais cruel que isso? Cruel principalmente por ser uma mentira, uma mentira tão cultivada e com tanto afinco. Mais dia ou menos dia, todos iremos envelhecer. Portanto, como podemos cobrar da outra um fato que é natural, que não dá para ir contra? Alguém mais velha pode ser considerada inferior? Você é jovem, ainda não chegou aos 28, faz diariamente três horas de academia e escapou de mais essa.

Em relação aos gays, não é diferente. Você é efeminado? O mais correto seria perguntar: você é mais efeminado que eu? Se for, tô fora. Pois é, eles são julgados pela carga de feminilidade que carregam. Num mundo que valoriza o homem, o macho, a masculinidade, a virilidade, o tamanho do pênis, ser ou não feminino deixa de ser apenas um jeito de alguém para ser uma qualidade, ou melhor, um defeito, desse alguém. Ok, ele sabe disfarçar a sua feminilidade e deixá-la vir à tona apenas na solidão do seu quarto.

Aí, a música aumenta e começam os shows da noite. Vem a drag da moda. No palco, sempre muito aplaudida. Ela está atenta na platéia, procurando uma ou várias vítimas. E vai encontrar: quanto mais frágil, mais inocente ou mais simples, mais tímida for essa menina ou tímido o menino, mais útil eles serão às crueldades que a artista irá aplicar: humilhações, gozações várias, exposição pública de possíveis defeitos e etc. etc. etc. Quanto mais sarcástica e cruel essa drag for, mais aplaudida será, afinal a vítima é o outro e não eu. Como não sou eu, não sinto na minha pele o que fazem com eles. Não me identifico com eles. Até acho legal que existam as vítimas e os carrascos, desde que eu nunca seja a vítima. E como eu quero desesperadamente fazer parte daquele grupo, eu aplaudo também. Esse é o nosso show, o show visto nas boates homo. Lembrei-me até de uma triste e viperina figura que fazia show numa boate nos anos 90, que sempre tinha as piores e mais violentas piadas feitas em cima de soropositivos e da Aids.

Sempre vi a homossexualidade como algo fortemente transgressor e revolucionário. Penso que a força demolidora do nosso sexo e amor seria capaz de criar uma nova sociedade, muito diferente dos parâmetros da atual. Por isso que me sinto tão desiludido quando vejo gays e lésbicas reproduzindo papéis e comportamentos tão negativos e que machucam tanto. E mais, nessa reprodução há uma armadilha. Uma cilada que irá cobrar um alto preço, mais tarde, quando não existir nem tempo mais para o arrependimento.

A sociedade que aí está foi construída por heterossexuais, segundo os valores deles, (somos minoria, alguns falam em 10% da população, outros menos) valores esses que não precisaríamos comprar: o machismo exacerbado antes de tudo, o futebol em detrimento da arte e da cultura, o ter antes do ser, o culto das aparências, vivemos em nome de uma imagem a tal ponto que nem sabemos mais quem somos, no final das contas. A sede pelo dinheiro, a banalidade sexual. Vejo cotidianamente gays se entregando para uma autêntica miséria sexual, outra forma de crueldade, consigo e com outros: pegação em banheiros públicos, cinemões, shoppings, parques etc. E ponto. Se contentam com isso. Nada contra pegação generalizada. Mas acho pouco. Muito pouco. Nada contra a pegação, mas também nada contra o amor. Nada contra os que procuram entrega nas suas relações e nos sentimentos. Negar o amor é cruel.

(o texto é de Ricardo Rocha Aguieiras e foi adaptado)


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publicado por star às 04:49 | link do post | comentar

1 comentário:
De Juliana Dacoregio a 22 de Novembro de 2008 às 21:21
Muito bom esse texto. Eu não conheço quase nada do "mundo gay" e a única vez que estive em uma balada deste tipo não vi nenhuma das coisas descritas no post, mas não duvido nem um pouco que isso aconteça, afinal estamos sujeitos à falhas, não importa a orientação sexual que tenhamos.


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