Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Contar a história das mulheres homossexuais é contar a história de algo que não existe. A mulher raramente faz parte da história, e no caso das mulheres homossexuais, menos ainda, já que é pouco comum associar à mulher o exercício de sua sexualidade, homo ou hétero, sem associá-la à procriação.

Segundo os antropólogos, o início de nossa civilização é marcado pela proibição do incesto. Os homens precisam de braços para o trabalho, mas não podem mais procriar para produzir esses braços usando as mulheres de sua família. Estabelecem, então, com outros homens relações de troca. É o início da sociedade patriarcal, em que a atividade sexual da mulher está submetida às necessidades masculinas.

Da mesma forma, o próprio sexo anatômico da mulher só passou a ter existência há pouco tempo. Os manuais de anatomia ainda no século XVIII viam os genitais da mulher como uma versão "falhada" do sexo do homem. Haveria apenas um sexo, o masculino, e a mulher seria o avesso disso, com os mesmos órgãos sexuais masculinos não desenvolvidos, ou voltados para dentro.

Por todas essas razões, a história das mulheres que se relacionam sexualmente com outras mulheres é algo praticamente inexistente. Há, entretanto, alguns momentos de visibilidade.


Na Era Clássica
Os parcos documentos existentes sobre a Era Clássica dão conta da existência apenas da poetisa Safo, habitante da ilha de Lesbos, que se tornará uma espécie de pedra fundamental de nossa história. Sua obra, entretanto, foi quase que totalmente destruída pelo Papa Gregório VII, tendo chegado a nós uma parcela ínfima de sua produção.

Além dela, teria vivido antes de Cristo a filósofa Filênis, que teria escrito textos acerca de sexo entre mulheres. Sobre ela há parcas referências. Por último, há as narrativas, lendárias, das Amazonas, uma tribo de mulheres guerreiras que somente se relacionariam com homens para a procriação.

Na Inquisição
Instrumento de repressão da Igreja Católica ao longo de muitos séculos, a Inquisição acabou legando documentos relacionados aos que passaram por suas garras. O caso mais conhecido foi o de Joana D'Arc, queimada por vestir-se como homem. Sabe-se que dormia sempre acompanhada de moças, como forma de defender sua virgindade.

Há o caso das religiosas Benedetta Carlini, abadessa de um convento próximo a Florença, que tinha visões místicas e eróticas e, por sofrer dores intensas e inexplicáveis, passou a ter como ajudante uma freira mais jovem, Bartolomea Crivelli. Os inquéritos da igreja revelaram que as duas tiveram relações sexuais por muitos anos.

Longe dos tribunais eclesiásticos, mas próximo aos tronos, na Suécia, ocorre a abdicação da Rainha Cristina, por não querer se casar. Registra-se que era sua companheira uma camareira chamada Ebba.

No Brasil, ficou registrada a amorosa correspondência entre a Imperatriz Leopoldina e a inglesa Maria Graham, depois de breve convivência que tiveram no Brasil.

Final do Século XIX
Foi marcado pelo surgimento de estudos de natureza psiquiátrica e de medicina legal. A ciência dedicava-se a estabelecer padrões de normalidade e a descrever, para tentar curar, tudo o que não se adequava a esses padrões.

No Brasil, Francisco Viveiros de Castro, considerava a homossexualidade um distúrbio que merecia tratamento médico. Mais tarde, Freud, em seus estudos sobre a sexualidade feminina, descreve causas da homossexualidade. Subjacente à visão de Freud está a concepção de superioridade masculina. Embora Freud represente um avanço em relação aos seus antecessores, fica evidente em seus estudos uma clara visão falocêntrica.

Século XX
A história da mulher lésbica sintoniza-se com a história do movimento feminista. Na primeira guerra mundial com os homens nos campos de batalha, as mulheres ocupam espaço no mercado de trabalho, dá-se a primeira onda mais visível do movimento feminista.

Mulheres destacam-se por sua atividade intelectual e por sua militância em prol dos direitos da mulher. A face mais evidente desse momento é o movimento sufragista, que lutava pelo direito das mulheres ao voto. É nesse momento que surgem, na Europa, grupos de mulheres lésbicas que vão destacar-se através de sua atividade artística.

Em Paris, o grupo que se reúne na casa de Nathalie Barney, freqüentado por nomes como Gertrude Stein e Alice B. Toklas, Radclyffe Hall e Lady Una Troubridge, Djuna Barnes, Romaine Brooks, Colette, Sarah Bernhardt, Isadora Duncan, Greta Garbo e outras. Na Inglaterra, o grupo de Bloomsbury reúne em torno de Virginia Woolf figuras como E. M. Forster, J. M. Keynes, Vita Sackville-West, entre outras.

A partir dos anos 30, há o recrudescimento do movimento feminista, que coincidi com a invisibilidade lésbica. É só a partir do final da segunda guerra, novamente a partir da maior inserção das mulheres no mercado de trabalho, que o movimento feminista vai viver sua segunda onda de maior visibilidade e militância.

Em 1949, Simone de Beauvoir publica "O segundo sexo", um marco na luta das mulheres. A partir de 1954, com a invenção da pílula anticoncepcional, as mulheres podem finalmente desvincular, com menos riscos, a atividade sexual da procriação.

Com estes antecedentes, a década de 60 é marcada pela intensificação das lutas feministas, pela liberação sexual e, pelo aumento da visibilidade lésbica. No bojo dos grupos feministas começam a aparecer os primeiros grupos de militantes lésbicas.

Os anos 70 marcam o início do divórcio entre lésbicas e feministas e surgem grupos específicos voltados para a causa homossexual, às vezes reunindo homens e mulheres ou apenas lésbicas. O final do século é marcado pela desqualificação do movimento feminista e uma intensificação dos movimentos gays e lésbicas, cuja face mais visível se expõe na afluência cada vez maior às Paradas do Orgulho Gay em muitos países.

(por Ana Maria Domingues de Oliveira - doutora do Departamento de Literatura da Faculdade de Ciências e Letras de Assis - UNESP)


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