Terça-feira, 20 de Novembro de 2007

Leonardo da Vinci passou pelas amarguras da homossexualidade. No ano de 1476 compareceu perante o tribunal de Florença para responder à acusação de sodomia, a pena legalmente prevista era a morte na fogueira, mas ele acabou absolvido por falta de provas. A absolvição permitiu que Leonardo da Vinci vivesse mais 43 anos deixando um acervo incomparável de obras artísticas, científicas e culturais. Uma fogueira chegou perto de privar o mundo de um dos homens mais extraordinários de todos os tempos.

Leonardo da Vinci é o símbolo do homem da Renascença, escultor, inventor, músico, astrônomo, pintor, anatomista e fisiologista, químico, botânico, ferreiro, mecânico, arquiteto, engenheiro, filósofo, matemático, homem belo e forte, excelente esportista - ótimo nadador e cavaleiro - Da Vinci padeceu do preconceito que atingia os bastardos e os trangressores e teve sua vida envolvida em sombras por muito tempo. Finalmente, o mistério foi desvendado por inteiro. Já se conhece o nome de seu último companheiro e herdeiro da obra e dos bens: Francesco Melzi, (foto da direita) um pintor alguns anos mais novo.

Da Vinci era filho do um tabelião e da camponesa Caterina, nasceu em Vinci, cidadezinha próxima a Veneza, em 15 de abril de 1452. Sua entrada na Universidade foi negada em virtude da origem bastarda sendo, então, privado da educação humanística disponível na época. Da Vinci mais que compensou esta falha educacional ao se transformar no maior gênio da humanidade nos dois últimos milênios. Dedicou-se a temas tão diversos quanto a cinemática, as causas das marés, o mecanismo do movimento do ar nos pulmões, hábitos noturnos das corujas, as leis físicas da visão humana e a natureza da Lua. Inventou urn máquina voadora, elaborou teoremas geométricos, desenvolveu diversos estudos hidráulicos, concebeu o vapor como meio de propulsão, escreveu poemas, fábulas e máximas filosóficas. O primeiro robô humanóide lançado pela NASA foi inspirado nos desenhos de Leonardo da Vinci. Em 1991, Donald Calne, revendo os manuscritos encontrados no palácio de Windsor, concluiu que ele já conhecia a doença de Parkinson. Foi aluno de Andrea del Verrochio, pintor ligado à poderosa família Medici, que o protegeu.

Em 1476, enquanto ainda morava na casa de Verrochio foi acusado da maior das vilezas na época: sodomia. O “alvo”: Giacomo di Caprotti, (foto) um jovem modelo de 17 anos, com quem acabou se relacionando durante 20 anos. Embora a Florença daqueles dias acolhesse os homossexuais, acusações desta natureza causavam sérios danos às carreiras de artistas dependentes de patrocínio, especialmente os que contavam com a chancela da Igreja Católica. Para escapar deste escândalo, mudou-se para Milão onde desenhou equipamento militar para o Duque Ludovico Sforza: armas manuais, projéteis, lança-chamas, canhões e arcos para arremesso de pedras e flechas. Os traumas da rejeição social e do preconceito fizeram Leonardo fechar sua vida privada a sete chaves. Sempre cercado por belos jovens, seus desenhos de genitálias, esboços de nus e escritos mostravam grande apreço pela beleza masculina e não há registro de amizade mais íntima com mulheres. Pinturas femininas perfeitas, só do colo para cima. Quando se arriscava a ir mais fundo, os genitais femininos, segundo críticos, ficavam distorcidos e mal resolvidos.

De acordo com seu diário, Da Vinci manteve relações bem próximas com seus estudantes, mas não era promíscuo. Além da relação com Giacomo di Caprotti, teve, nos últimos anos, a companhia constante do também pintor Francesco Melzi, aristocrata da Lombardia, que foi seu testamenteiro, herdeiro universal e administrou o acervo de mais de 5.000 manuscritos que detalhavam inventos em ótica, acústica, mecânica dos fluídos, hidraullica, vôo, astronomia, anatomia e armamentos, pontes portáteis, túneis subterrâneos, navio à prova de bombas, formação de chuvas. As invenções eram protegidas, pois já naquela época havia a espionagem industrial e roubo de direitos autorais. As idéias de Leonardo Da Vinci eram inacreditáveis e impraticáveis para seu tempo. Ao visitar uma exposicão em Amboise (França), com maquetes construídas a partir de seus esboços, fiquei me perguntando se ele viajou no tempo ou se recebeu a visita de um viajante do futuro, pois lá estavam, entre tantas outras, o bate-estacas das construções modernas, a caixa de marchas dos automóveis, a bicicleta, o tanque de guerra, o helicóptero. Descobriu a glândula tireóide, estudou a placenta, o cordão umbilical e as vias de nutrição fetal. Estudou o coração, concluíndo que esse órgão é massa muscular alimentada por artérias, possuindo veias, como os outros músculos. Intuiu ainda o princípio da sustentação do "mais pesado que o ar". Técnicas revolucionárias compensaram o “pequeno” número de pinturas, se o compararmos com outros artistas, mas elas se tornaram as mais valorizadas do mundo.

A primeira encomenda para pintar o mural do refeitório da Igreja Santa Maria delle Grazie, em Milão, resultou no afresco “Última Ceia” (1495-1498) onde Da Vinci usou técnicas pioneiras, admiráveis pelo uso da perspectiva, mostrando, também, detalhes psicológicos dos componentes da mesa. Esta “Última Ceia” começou a se deteriorar 50 anos após seu término. Mesmo muito comprometida e desgastada, teve e tem uma primordial importância na História da Arte. Tornou-se grande amigo do maior político e escritor daqueles tempos: Niccolo Machiavelli.

Na idade madura, foram elaboradas as obras mais conhecidas: Mona Lisa, Leda e São João Batista. A Mona Lisa, ou Gioconda, exposta no Museu do Louvre é seu quadro mais famoso e ambíguo. Embora tenha sido apresentado ao mundo como o retrato da mulher do comerciante Francesco del Giocondo, alguns experts em Da Vinci especulam sobre a possibilidade de ser uma reprodução da figura da mãe do artista ou, mesmo, sua auto imagem em travesti. Em 1507, começou a trabalhar para Francisco I sucessor de Luís XII no trono da França - e aceitou o convite para morar em Cloux, perto de Amboise, no castelo que ganhou do soberano. Precisou voltar à terra natal para resolver pendências relativas à herança do pai e lá ficou até 1511, ano em que conheceu Francesco Melzi, último companheiro, a quem confiaria, ao morrer, todos os seus manuscritos, todos os bens, todos os esboços, todas as pinturas. Leonardo da Vinci morreu em Cloux (2 de maio de 1519), nos braços do Rei da França.

(texto da jornalista, escritora e ativista Thereza Pires)



publicado por star às 13:51 | link do post | comentar

2 comentários:
De Thereza Pires a 29 de Novembro de 2007 às 18:04
É uma honra ser citada neste site.
Parabéns pela coragem e coerência.
Beijos
Thereza Pires


De Mara* a 30 de Novembro de 2007 às 07:53
para Thereza Pires

Honrados ficamos nós, homossexuais, simpatizantes e aliados da comunidade, em tê-la aqui, com seus textos biográficos que revelam os grandes homossexuais da história, o que nos enche de orgulho, e acima de tudo pela grande mãe que você é e de quem é. Obrigada pela visita.

Beijos,
Mara*


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