Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007
Título original: “The Well of Loneliness”
Autora: Radclyffe Hall
Editora: Record

O livro foi lançado em 1928 e causou um enorme alvoroço em toda Europa e América. O livro foi proibido na Inglaterra, decisão que provocou uma crescente onda de lutas pela liberdade de expressão nos segmentos mais libertários. Banido das prateleiras o livro tornou-se um succès de scandale. Cópias passavam de mão em mão e eram contrabandeadas de Paris ou Berlim. O livro virou um cult lésbico que atravessou décadas como referência obrigatória para as garotas que gostam de garotas. A personagem central e narradora é Stephen, uma jovem herdeira inglesa que, cedo descobre suas inclinações sáficas. Adulta, vai percebendo o quanto difícil era ser respeitada pela sociedade inglesa do começo do século. É doce perceber a ingenuidade de Stephen sempre esperando ser aceita, apesar de vestir-se como homem, apesar de trabalhar e ter seu próprio dinheiro e apesar de querer casar com uma mulher. O babado era muito forte para o gosto daquela sociedade pós-vitoriana. O romance apresentava uma lésbica como heroína e tema central. Os moralistas ficaram boquiabertos achando que o livro lançava um olhar favorável sobre o lesbianismo, o que foi muito engraçado pois as pessoas “do meio” achavam a personagem muito negativa e complexada. A luta por aceitação da personagem Stephen - e a própria luta de Hall contra a proibição do livro - tinha um caráter panfletário quase pré-militância que irritava tanto os carolas quanto os de espírito anárquico ou libertário. Outros eram mais pragmáticos como Virginia Woolf que, convencida pela amante Vita Sackville-West, manifestou publicamente seu apoio à Radclyffe Hall. Apesar de não considerar o livro de grande valor artístico, Virginia defendia com ardor e por princípio, o direito à livre expressão. O fato é que “The Well of Loneliness” é desses livros que cruzam territórios, avançam fronteiras apresentando ao mundo “careta” a intimidade de um personagem gay de maneira direta e crua. Tipo o seriado “The L World” hoje em dia. A vida de Stephen é bem parecida com a da própria autora, Radclyffe Hall. Hall também vestia-se com roupas masculinas, monóculo, e acreditava que no dia em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse oficializado, todo o estigma de imoralidade desapareceria dos ombros dos invertidos. Ela era lésbica, mas era conservadora. Gostava de ser chamada de John, desprezava a aura de promiscuidade que cercava o ambiente gay da época e acreditava em casamentos indissolúveis como o dela e de sua esposa Lady Una Troubridge. Com o tempo, foi se aproximando dos queers, dos gauches e da turma de Natalie Barney, (retratada no livro como Valérie Seymour) em Paris, depois que percebeu que a sociedade careta e oficial não a engolia mesmo. A grande novidade de “The Well of Loneliness” foi ter trazido à tona as primeiras discussões sobre os direitos civis dos homossexuais. Hall e seu personagem Stephen lutam para serem aceitos e incluídos na sociedade. Prestes a completar 80 anos “O Poço da Solidão” não é um dos 10 melhores livros de todos os tempos como “Orlando”de Virginia Woolf, mas citando a própria Virgínia, “há muitas coisas lindas no livro de Miss Radclyffe Hall”. “O Poço” junto com “Orlando” e “The Ladie’s Almanack” de Djuna Barnes, todos lançados no mesmo ano, formam a Santíssima Trindade da literatura lésbica de 1928. Depois disso as meninas nunca mais foram as mesmas...

(por Cilmara Bedaque e Vange Leonel)



publicado por star às 17:12 | link do post | comentar

3 comentários:
De lucy in the sky a 18 de Outubro de 2007 às 22:44
nossa, q bacana!
será q consigo um livro desses num sebo virtual???


De Anónimo a 12 de Agosto de 2008 às 15:18
li esse livro e é perfeito pena q minha cachorrina rasgou e ta dando um trabalho achar outro....


De Mara* a 13 de Agosto de 2008 às 11:28
existe o sebinho virtual 'traça' (bem original né?) onde poderão encontrar o livro. cliquem aqui (http://www.traca.com.br/?mod=LV102313&origem=resultadodetalhada)

beijos muitos


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