Sábado, 31 de Maio de 2008

imagine ser mãe de um filho gay ou lésbica na sociedade em qualquer tempo. Mas sempre existem aquelas que provam serem mais fortes do que qualquer tipo de preconceito.

Lucinha Araújo, que um dia se casou com João Araújo e os dois acabaram levando um susto com o filho que produziram: o exagerado e inesquecível Cazuza. Lucinha enfrentou todas as loucas fases do rebento, que cada vez a surpreendia mais: mergulhando de cabeça no sexo, drogas e rock'n'roll, Cazuza levou a mãe à loucura ao se assumir bissexual, e comoveu o Brasil ao assumir publicamente ser portador do HIV. A mãe acabou tendo que rever todos os seus conceitos. Lucinha teria feito qualquer coisa para salvar o filho da morte, mas infelizmente isso não estava ao seu alcance. Cazuza morreu em julho de 1990, e a história da relação entre ele e sua mãe está no livro "Só as mães são felizes", escrito por ela mesma em 1997. Ela criou também a ‘Sociedade Viva Cazuza’, que cuida de crianças infectadas pelo HIV. Disse Lucinha: "Sempre penso no que todo esse sofrimento quer dizer, e no que significa eu estar viva e meu filho morto".

Com a cantora e atriz Cher, a história foi o inverso. Cher é que era a louca, vivendo o ‘flower power’ das décadas de 60 e 70, quando deu à luz Chastity Bono, uma menina angelical de cabelos louros e jeito sossegado, filha com o cantor Sonny Bono. Cher continuou na loucura, até que levou um choque quando a filha declarou-se lésbica, já na adolescência. No seu livro "Family Outing", Chastity conta: "Minha mãe começou a ficar inquieta quando eu tinha 6 anos e comecei a escolher minhas roupas. Ela lembra que seu instinto dizia que eu era diferente". Chastity cresceu, se engajou em campanhas militantes do movimento lésbico americano, e Cher acabou aceitando o fato. Não sem antes se martirizar pela sexualidade de Chastity. A cantora se culpava por ter uma filha homossexual. Hoje Cher é um dos maiores ídolos do público gay. E sua filha, uma grande figura para as lésbicas.

A comediante Ellen DeGeneres saiu do armário em cadeia nacional, quando estrelava o seriado "Ellen". Assumiu o romance com Anne Heche e ganhou de cara a admiração do público gay. Mas isso não era nada. Quando a mãe de Ellen, Betty DeGeneres, apoiou publicamente a filha, as organizações GLS dos Estados Unidos elegeram Betty como a "mãe hétero favorita da comunidade gay". Betty escreveu o livro "Love, Ellen", onde narra sua história e como aprendeu a respeitar e admirar a filha. Betty participa ativamente das campanhas em prol dos direitos homossexuais, tendo sido uma das presenças mais importantes na ‘Marcha do Milênio’, que aconteceu em Washington. No caso da escritora Anne Rice, seu filho, Chris Rice, também revelou o gosto pela literatura. Porém ao invés de escrever livros sobre vampiros, como a mãe, Chris resolveu falar sobre o suicídio, em seu primeiro romance: "A Density of Souls". Aos 21 anos, Chris declarou-se gay, mas não quis falar sobre o tema. "O tema gay não me interessa, já existe bastante gente falando sobre isso", declarou o jovem escritor. Anne apóia a sexualidade do filho, ela que já celebrou a bissexualidade com sua maior criação: o vampiro Lestat.

E as mães cujos filhos são mártires da causa gay? No Brasil, entre tantos assassinatos de gays, o assassinato de Edson Neris, de 34 anos, adestrador de cães cuja barbaridade de seu assassinato causou comoção dos defensores dos direitos humanos no Brasil e no mundo. Edson foi espancado por um grupo denominado ‘Carecas do ABC’, que o atacaram por homofobia. Edson estava com o amigo Dario Pereira Netto, de 34 anos, homossexual assumido. Eles haviam se conhecido dez dias antes e aquele era o segundo encontro dos dois. Quando cruzaram a Praça da República, reduto gay da cidade, Edson e Dario chamaram a atenção dos ‘carecas’: estavam de mãos dadas. Foi o bastante para despertar a fúria da gangue. Os ‘carecas do ABC’ surgiram no início da década de 80, inspirados nos violentos Skinheads europeus e americanos. Os integrantes da gangue são jovens da classe média baixa, abominam roqueiros cabeludos, estrangeiros e homossexuais. Têm como lema: "Deus, pátria e família". A mãe de Edson, no entanto, negou que o filho fosse gay, e não quis se envolver em militância.

O exemplo oposto foi dado por Judy Shepard. Judy perdeu o filho, o estudante americano Matthew Shepard, assassinado em 1998. Matthew era gay assumido, ligado a grupos e entidades de defesa dos direitos homossexuais. Numa noite foi abordado por dois rapazes que se disseram gays, mas a dupla acabou assassinando brutalmente o estudante, que se transformou num símbolo da luta contra a violência homofóbica. A partir daí, Judy Shepard e o marido, Dennis, iniciaram intensa atividade, tornando-se defensores dos direitos gays, através da ‘Fundação Matthew Shepard’, que aceita doações para a luta contra a homofobia. Na ‘Marcha do Milênio’, Judy e Dennis também foram presenças marcantes. Judy declarou certa vez: "Pessoas como Matthew têm o direito de viver suas vidas e serem verdadeiros consigo mesmos. E pessoas como aqueles que machucaram meu filho, também têm o direito de viver, desde que não maltratem as outras pessoas. O que aconteceu com a época quando éramos bons uns com os outros? Porque temos que viver com medo? Eu estou apenas tentando atingir a todos. E mostrar que as pessoas que têm fobias e medos não estão com razão. Eu não sei se é possível mostrar isso, mas eu vou tentar".

Como diz Lucinha Araújo no fim de seu livro: "Nem todas as mães são felizes".

(por Luís Felipe Steffen)



publicado por star às 06:46 | link do post | comentar

3 comentários:
De Isa Zeta a 31 de Maio de 2008 às 14:20
Ótimo post.

Nem todas as mães são felizes mesmo.
Nem os filhos, acredito. Não consigo abrir o jogo lá em casa, e não sei se um dia, realmente terei essa coragem de sair do armário.


De Isa Zeta a 31 de Maio de 2008 às 14:20
Ótimo post.

Nem todas as mães são felizes mesmo.
Nem os filhos, acredito. Não consigo abrir o jogo lá em casa, e não sei se um dia, realmente terei essa coragem de sair do armário.


De Isa Zeta a 31 de Maio de 2008 às 14:21
Ótimo post.

Nem todas as mães são felizes mesmo.
Nem os filhos, acredito. Não consigo abrir o jogo lá em casa, e não sei se um dia, realmente terei essa coragem de sair do armário.


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