Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

...ou como foi passar parte da adolescência sendo induzida a gostar de brócolis quando o que eu queria mesmo era provar o gosto de chocolate das meninas...

Como seria beijar outra mulher? Embora a idéia fosse socialmente torta, afinal, - onde já se viu menina beijando menina? - me parecia estranhamente pertinente, impressionantemente coerente, libidinosamente paradoxal. E assim se passavam os anos. Nos intervalos, entre uma juvenil reflexão e outra, vôlei, sessão da tarde e festinhas embaladas ao som de Grease, nas quais eu experimentava aquilo que me era permitido: hi-fi e meninos. Por mais que tentasse, não conseguia gostar. De nenhum dos dois. É como se você só pudesse comer brócolis sabendo que chocolate existe, mas não foi feito para você – era proibidíssimo. Pior: você vivia rodeada por chocolates. Chocolates formavam seu time de vôlei, eram seus melhores amigos, ligavam regularmente. Você freqüentava o vestiário dos chocolates, por Deus do céu. Mas não era permitido fazer nada além de olhar. Você era uma diabética dentro da doceria. Ande com chocolate, mas coma brócolis, era o recado. E assim se passavam os anos. Nada contra brócolis, mas eu sabia que chocolate devia ser melhor. Tinha que ser porque, caso contrário, as pessoas não se beijariam tão apaixonadamente nos filmes e nas novelas. Aquela gente certamente estava provando de um gosto bem mais atraente do que brócolis. E então, quando você já havia se conformado com a dieta do brócolis, descobriu que podia comer chocolate escondido. E o mundo, nessa hora, deu uma parada. Beijar outra mulher era de fato muito mais coerente do que supunha. E muito melhor também. Aos 16 anos, eu tinha descoberto o sentido da vida. E ele residia em tudo aquilo que se segue ao primeiro beijo. A descoberta do sexo, a perda da inocência, não poderiam ter sido mais clandestinamente perfeitas. Minha melhor amiga tinha acabado de se tornar minha amante e, por uma dessas deliciosas ironias da vida, eu podia ir com ela ao banheiro quando bem entendesse, dormir na casa dela todo fim de semana, dividir a cama com ela. Sozinhas, descobrimos nossos corpos, nossos delírios, nossos mais bem guardados segredos.

A história da primeira vez é mais ou menos essa para toda menina gay. De repente, aquilo que tinha gosto de inalcansável e ilegal, se torna possível e extremamente legal. Beijar outra mulher era de fato muito mais coerente do que supunha. E muito melhor. O lado bom é que a coisa acontece com uma intensidade e com um tipo de poesia que, talvez, heterossexuais desconheçam. O lado ruim é que a paixão secreta, uma hora, cansa. Culpa, medo, dor, raiva, saudade, vergonha, orgulho. Todos os sentimentos que começaram assim que o primeiro beijo terminou. Todos os sentimentos com os quais convivi até ter coragem de me aceitar, já balzaquiana. Foi assim minha adolescência. Não muito diferente de qualquer outra, com espinhas, dúvidas, anseios, certezas que rapidamente viriam a ser derrubadas e a alucinação de achar que tinha, finalmente, entendido o sentido da vida. No saldo geral, a emoção superou a dor, o delírio foi maior do que a culpa. No final, a descoberta de que chocolate não é, quem diria, proibido, e a expectativa de que, num futuro nem tão distante, poderíamos todos, mais do que simplesmente aceitar, celebrar nossas diferenças. O sonho de um mundo sem preconceitos, sem minorias, sem intolerância, sem proibições estúpidas. Foi essa a única esperança que me guiou adolescência adentro. E, depois, para fora dela.

(texto de Milly Lacombe – jornalista)


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publicado por star às 11:55 | link do post | comentar

2 comentários:
De Si a 13 de Agosto de 2007 às 16:37
éca, passei por estas situações tb. Mas por ter encarado a situação bem cedo, paguei um preço alto mas deixei definitivamente os brocolis de lado. Beijoss


De LUA e SOL a 25 de Outubro de 2007 às 16:00
Oi MAra.. Tava lendo teu blog de novo e vi esses dois textos: Corações com asas e chocolate.
Adorei tu pode me mandar??? Gostaria de mandar pra minha namorada. Vou esperar.
Beijos
LUA
athaydecris@bol.com.br


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