Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008



Já não me lembro de quando conheci a Maria. Aceitamo-nos mutuamente e não sei se, na verdade, alguma vez fomos amigas. Dela nunca se sabia nada ao certo. A vida atingia-a em golfadas, em ondas de tristeza ou alegria. Detestava sentir as meias tintas, as esperas, os tempos mortos ou agonizantes e, talvez por isso, forçava situações limite. Só estava bem ou extremamente mal, o que era quase o mesmo, quando experimentava sentimentos intensos. Positivos ou negativos. Quem a conhecia à superfície, julgava-a serena e segura. Não descortinava a inquietação no fundo do olhar. Outros achavam-na conflituosa, intolerante para com a falta de inteligência, irritante naquele jeito de querer ter sempre a última palavra numa discussão. Não sabiam que tudo isso era uma forma de sacudir o tédio que por vezes se apoderava dela e de se sentir viva.

Poucos a conheciam realmente. Porque não se deixava adivinhar, fechava-se naquela insatisfação perante a vida. E, mesmo entre esses, ninguém entendia que se fartasse tão rapidamente de tudo o que desejava e, eventualmente, conseguia. Na verdade, só se interessava pelo que não conseguia possuir. Sempre na procura de qualquer desafio que a fizesse viver. Não era feliz nem infeliz, ou podia ser as duas coisas num intervalo de tempo mínimo. Tinha alguns poucos afetos permanentes. As suas referências. Essas, tentava mantê-las a todo o custo. Até quase à anulação de si própria. Um dia perdeu alguém que julgava eterna na sua vida e deixou que a tristeza invadisse todos os cantos da alma. Não quis mais desafios, trancou portas e janelas e fez desaparecer tudo o que a distinguia de quem quer que fosse. Lentamente, diluiu-se numa massa informe de gente 'normal' e cinzenta. Quando se perguntava por ela, ninguém sabia responder. Maria tinha-se tornado invisível.

(não sei de quem é o texto, se alguém souber me avise)


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publicado por star às 16:52 | link do post | comentar

2 comentários:
De Victor S. Gomez a 17 de Dezembro de 2008 às 09:20
Não consigo vir aqui, sem ficar cada vez mais apaixonado por seu trabalho. Um grande beijo e feliz natal.


De L.Gris a 17 de Dezembro de 2008 às 10:20
"...diluiu-se numa massa informe de gente 'normal' e cinzenta..."

Tbm não sei de quem é o texto, mas uma certeza: maravilhoso!


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