Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

e a poesia virou prosa...de um amor, assim, tão grande

Senhor, sei que nada lhe posso contar, além do passado que me atormenta e da lua que me faz lembrar. Toda a gente fingia que nada sabia do amor proibido entre Cássia e Rita. Duas mulheres, quase meninas, que se descobriram em noite de festa, na dança de roda, pulando fogueira. Que frio era aquele que Cássia sentia, cada vez que tocava os braços de Rita? Lugar não havia que pudesse acolher amor tão intenso, feito de flores, de frutos e laços. E assim, escondidas, iam se amando, Cássia e Rita, evitando os olhares da gente, que, mais do que raiva, inveja lhes tinha.

Mas estava aquele amor, fadado ao fracasso, quando em noite de lua resolveram se amar à beira de um lago. Um certo Pedro Cruento, metido a valente, sabedor do destino das duas meninas, levou a todos por testemunhas, doido de amores que estava por Rita. Que visão estupenda, senhor, lhe afirmo, era aquela de corpos se amando, em rasgos de paixão inocente! Tão iguais, tão perfeitas em suas marmóreas figuras, que até hoje, não sei, meu senhor, onde começavam os cabelos de Cássia e terminavam os cachos de Rita. Mas nem a visão do amor enterneceu aquela gente que, armada de pedra, chibata e porrete, perseguiu as gazelas, arrancando-lhes peles, corações e dentes.

E esta é a história de um amor proibido: Cássia e Rita, duas mulheres... quase meninas, que, ousando se amar, nunca mais foram vistas. E é Pedro Cruento, o metido a valente, que todas as noites percorre as matas, fontes e lagos, chorando as dores das chagas expostas, pedindo que a lua lhe traga de volta os risos de Cássia, os olhares de Rita.

Ousa agora, senhor, perguntar-me meu nome? Pois lhe digo, senhor: meu nome é desengano, é remorso, é desalento. É dor de uma vez tendo visto o amor, afogá-lo para sempre em meus sonhos, outrora tão belos, puros, singelos. Ousa, ainda, perguntar-me meu nome? Se nome já não tenho? Se no poço sem fundo, onde sepultei minha louca procura, já não me reconheço? Ora, senhor! Da vida nada mais espero, além do clarão do luar, perdido que estou entre as lembranças de duas meninas...quase mulheres: Cássia e Rita.

(por mariza lourenço
escritora e advogada criminalista)


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